Ponentes
Descripción
O grupo de extensão “Leituras no Cárcere” está vinculado à Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e atua desde 2023 no Conjunto Penal de Barreiras (CPB), localizado no município de Barreiras, no estado da Bahia. As atividades do grupo são orientadas pela política de Remição de Pena por Leitura, regulamentada no Brasil pela Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984) e normatizada pela Resolução nº 391 do Conselho Nacional de Justiça, de 10 de maio de 2021, que estabelece os procedimentos para a remição por meio da leitura e da escrita no âmbito do sistema penitenciário nacional.
A partir disso, o grupo desenvolve sessões de leitura e debate com pessoas privadas de liberdade, buscando dar ênfase à obras em que seja possível trabalhar eixos temáticos como raça, gênero, sexualidade e construção de vocabulário crítico. Para além das atividades intramuros, o grupo mantém uma frente voltada à população externa – familiares e visitantes dos internos –, por meio da ação chamada de “Sala de Espera”, realizada atualmente nas dependências da Defensoria Pública de Barreiras (8ª Regional).
Atualmente, nosso grupo é composto por cerca de quinze membros, sendo treze de nós mulheres, incluindo as duas professoras que coordenam as atividades. No mês de outubro de 2025, ingressei no grupo como extensionista, motivada pelo interesse de pesquisa preexistente sobre o sistema carcerário. Com isso, minha entrada tardia no grupo me colocou em uma posição que, inicialmente, interpretei como desvantagem, pois supus que os internos, nos momentos das atividades que desenvolvemos, dariam preferência às interações com pessoas já conhecidas, com quem tinham mais tempo de convívio. O que se seguiu, no entanto, contrapôs essa suposição. É a partir daí que se originam as reflexões que este relato se propõe a sistematizar.
Desde a primeira visita, notei que o ambiente do CPB impõe marcações de gênero antes mesmo de qualquer interação com os internos. A entrada das mulheres no conjunto penal é condicionada a protocolos específicos de vestimenta: sem roupas justas, sem cabelos soltos, sem acessórios, sem tecidos transparentes. Sem dúvidas, as orientações são compreensíveis no contexto institucional, mas não deixam de sinalizar, desde o limiar, que o corpo feminino é um elemento que precisa ser gerenciado naquele espaço.
Ultrapassada a entrada, nota-se a ausência total de mulheres na região das galerias. As únicas figuras femininas que circulam no CPB são as agentes penitenciárias – restritas às guaritas – e as visitantes, esposas e mães que se apresentam nos dias de visita. Nós, extensionistas, constituímos uma terceira categoria, sem um precedente claro naquele espaço. Nem funcionárias, nem família. Somos mulheres da universidade, e essa indefinição, percebo agora, tem efeitos.
Nas sessões de atividade, seja a exibição de filmes, debates sobre as obras lidas ou preenchimento dos formulários de remição, captou minha atenção não o que acontecia durante as atividades programadas, mas o que acontecia nos intervalos, nas margens, nos momentos de transição entre uma tarefa e outra. É nesses instantes que os internos passam a realizar abordagens, e raramente para perguntar sobre a atividade do dia.
As conversas, em muitas das vezes que estive em atividade no CPB, seguiam para territórios pessoais com uma fluidez surpreendente. Pude ouvir histórias sobre trajetórias de vida, sobre as dificuldades cotidianas dentro do CPB, sobre filhos, sobre os planos para depois da soltura. Em uma das situações, um interno me relatou que eu me parecia com a filha dele. Contou que sempre tivera interesse em estudar gastronomia, que pretendia prestar o ENEM-PPL, me confidenciou seu desejo de recomeçar. Ainda, pediu ajuda para publicar um livro com histórias nascidas dentro daquelas paredes. Em outros momentos, alguns internos me pediram que verificasse a situação da execução penal deles, e que os orientasse sobre irregularidades processuais.
Esse padrão se tornou mais nítido quando comecei a comparar os encontros em que entrávamos apenas mulheres com aqueles em que colegas homens também participavam das atividades. Em uma das visitas, adentramos a sala de aula em um grupo de quatro pessoas: eu, uma das professoras e dois colegas homens. Foi notória a postura distinta dos internos.
Nesse sentido, algo evidenciou que interação com os colegas homens mantinha a formalidade de uma relação aluno-professor: as falas eram restritas às dúvidas da atividade, a distância era preservada, os assuntos pessoais não emergiam. Todavia, com as mulheres do grupo, a dinâmica se transformava. Qualquer pausa na atividade era suficiente para que as conversas se abrissem em direção ao pessoal, ao afetivo, ao que não cabia nos formulários de remição.
Essa observação não passou despercebida. O acúmulo das visitas e a leitura que já trazia sobre estudos de gênero fizeram despontar um questionamento inevitável: o que encontram esses internos nessas mulheres extensionistas, que os leva a essa abertura?
A hipótese mais consistente que este relato pode oferecer ancora-se na compreensão butleriana de que o gênero é uma performance reiterada em contextos sociais (Butler, 2003). Com isso, ao adentrar aquele espaço, mesmo sem intenções deliberadas, performamos papéis historicamente associados ao feminino – a escuta, o acolhimento, a disponibilidade afetiva.
Rita Laura Segato (2016) nos ajuda a entender que o cárcere masculino é um espaço estruturado pela masculinidade hegemônica, e que, a partir disso, a presença do feminino ali reorganiza hierarquias e abre canais de comunicação que de outro modo permanecem fechados. Os internos até podem escolher conscientemente se abrir com as mulheres, mas é fato que o espaço generificado produz essa abertura como efeito das próprias estruturas que o organizam.
Nesse prisma, emerge também o que a teoria da economia do cuidado permite nomear. Em uma acepção ampla, o cuidado “engloba as atividades desempenhadas, gratuitamente ou não, por pessoas dedicadas a prestar serviços orientados à satisfação de necessidades físicas ou psicológicas de terceiros” (Souza, 2017). Embora essa definição seja objeto de debate e ressignificação por diversas teóricas feministas, ela capta uma nuance do que ocorre naquelas salas. Há uma demanda de cuidado direcionada a nós, mulheres extensionistas, não porque tenhamos nos oferecido explicitamente a isso, mas porque carregamos, em nossos corpos e em nossas formas de estar no mundo, a marca histórica de quem cuida.
Paulo Freire (1983) nos lembra que a extensão, quando genuinamente dialógica, exige escuta – e essa escuta, longe de ser neutra, é atravessada por quem somos. O cuidado que emerge nessas interações, mesmo que não nomeado ou intencional, parece ser parte constitutiva da forma como as mulheres extensionistas são recebidas naquele espaço – e, por isso, merece ser reconhecido e refletido como dado da prática extensionista.
O que se depreende, ao final dessas reflexões, não é uma resposta totalmente consolidada, mas um convite ao incômodo produtivo. O CPB não é um espaço que existe à parte da sociedade. Ele está, na realidade, tão imerso nas estruturas sociais quanto qualquer outro espaço, e as relações de gênero que organizam o mundo fora de seus muros também organizam o que acontece dentro dele. Por isso, toda vez que adentramos as salas de aula do conjunto penal, levamos conosco a bagagem de existirmos como sujeitos socialmente situados – sujeitos atravessados por gênero, por raça e por história. Nomear isso não enfraquece a prática extensionista. É, ao contrário, uma forma de torná-la mais honesta, mais reflexiva e, portanto, mais comprometida com aquilo que a extensão universitária tem de mais potente, que é o encontro humano que a lógica punitiva do encarceramento tende a suprimir.
| País | Brasil |
|---|---|
| Correo electrónico | mariv.s1405@gmail.com |
| Modalidad de inscripción de la ponencia | Taller de sistematización de experiencias |