Ponentes
Descripción
O presente texto apresenta uma reflexão a partir de uma Pedagogia das Artes Cênicas infiltrada em espaços de privação de liberdade. A análise aqui desenvolvida situa-se no âmbito do trabalho de pesquisadores e pesquisadoras, em níveis de graduação e pós-graduação, vinculados ao projeto de pesquisa Teatro e Prisão: práticas de infiltrações das Artes Cênicas em espaços de vigilância e ao projeto de extensão Pedagogia das Artes Cênicas e Espaços de Criação: Teatro e encarceramento. Ambos são coordenados pelo Prof. Dr. Vicente Concilio, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Florianópolis, Santa Catarina, sendo compostos também por estudantes de mestrado e doutorado, bolsistas de iniciação científica e bolsistas de extensão.
A atuação dos integrantes se estabelece a partir da articulação entre ensino, pesquisa e extensão, desenvolvendo-as em quatro unidades distintas: o Centro de Internação Feminino de Florianópolis (CIF), o Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE), o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Florianópolis (HCTP) e o Presídio Feminino de Florianópolis (PF). Os pesquisadores e as pesquisadoras elaboram e conduzem aulas e oficinas de teatro, além de promoverem apresentações e momentos de fruição nos espaços mencionados. O artigo Teatro e prisão: infiltrações das artes cênicas em espaços de vigilância (Concilio, Cardoso, Santos, Souza, 2024) apresenta, de forma mais detalhada, o trabalho realizado pelo projeto, com ênfase nas atividades extensionistas realizadas também no Centro de Internação e no Presídio.
A análise-relato-reflexão que construímos no presente texto emerge do trabalho extensionista desenvolvido pelo pesquisador Guilherme Augusto Nunes dos Santos e pela pesquisadora Amanda Dalsenter Cardoso, sob a orientação do Dr. Vicente Concilio, no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Florianópolis. Embora Amanda não tenha participado diretamente da elaboração deste recorte textual, suas contribuições foram fundamentais tanto para a permanência do projeto na instituição quanto para a construção de uma leitura crítica do trabalho ali realizado.
Desde 2023, motivada por um interesse pessoal de Guilherme e Amanda, estabeleceu-se uma relação entre o Hospital de Custódia e a Universidade do Estado de Santa Catarina, de maneira contínua, no âmbito da disciplina Estágio Curricular Supervisionado: Teatro na Comunidade I, ministrada pelo Dr. Vicente Concilio, no curso de Licenciatura em Teatro da UDESC. Com a institucionalização dessa parceria e o cumprimento dos créditos da disciplina, as atividades passaram a ser desenvolvidas como um projeto vinculado às ações de pesquisa e extensão coordenadas por Vicente, assegurando a continuidade das ações artístico-pedagógicas no Hospital de Custódia. Atualmente, essas ações compreendem a pesquisa de mestrado de Guilherme.
As aulas no Hospital de Custódia, que constituem o corpo analítico deste texto, foram elaboradas com base no uso de diferentes abordagens, tais como jogos teatrais, improvisação, texto e jogo, construção de materialidades, teatro de animação, teatro de sombras e aproximações com a literatura, a música, a dança e as artes visuais. A investigação dessas múltiplas metodologias buscava compreender modos de atuação diante das diversas especificidades, limitações e desafios do contexto, especialmente considerando que as práticas eram desenvolvidas por jovens professores em processo de formação. A construção de um repertório de práticas estabeleceu uma dinâmica entre professores e alunos que se mantém até hoje (2026).
A investigação acerca da práxis e da fundamentação metodológica das aulas desenvolvidas no HCTP, bem como dos principais avanços e desafios identificados ao longo do processo, encontra-se pormenorizadamente descrita em Notas sobre o teatro e a prisão: a crise da custódia e do tratamento psiquiátrico (Santos, 2025). A supracitada monografia constitui, assim, o ponto de partida para a formulação de uma nova pergunta: de que modo uma prática extensionista no âmbito das Artes Cênicas pode suscitar outras formas de olhar, de se relacionar e de exercer uma crítica sobre determinado território, por meio de uma leitura poética e estética?
Na tentativa de responder a essa questão, nossa análise-relato-reflexão aproxima-se metodologicamente de uma perspectiva de multiplicidade epistemológica, transitando entre a pesquisa-ação, os relatos de experiência e o diálogo com diferentes campos de produção de conhecimento. Desse modo, estabelece-se uma interlocução não apenas com pesquisadores do campo científico, mas também com escritoras e artistas. Ancorada na dramaturgia O Rato no Muro (2023), da escritora brasileira Hilda Hilst (1930–2004), esta reflexão se debruça sobre a experiência de ensino de teatro no HCTP, tomando como recorte temporal os anos de 2023 a 2025. A partir da metáfora do rato, e em aproximação crítica à Resolução nº 487/2023 do Conselho Nacional de Justiça (2023), que estabelece diretrizes para o fechamento de instituições como o HCTP, formulam-se hipóteses acerca de infiltrações, modos de organização e possibilidades de produção de novos mundos.
Ao nos colocarmos como artistas-professores inseridos no interior dessas instituições, assumimos também a posição de leitores específicos de suas engrenagens, tensões e dispositivos de domesticação. Não observamos tais espaços de fora, mas a partir de uma experiência situada, atravessada pelas contradições de habitar contextos que, ao mesmo tempo em que possibilitam a prática artística e pedagógica, também operam mecanismos de controle e vigilância. Nesse sentido, aproximamo-nos da dramaturgia O Rato no Muro, de Hilda Hilst, que nos apresenta, por meio da fabulação, uma Instituição Total (Goffman, 2015). A partir dessa leitura, tecemos diálogos entre a ideia de infiltração e a figura da Irmã H; entre a Superiora e o Panóptico; entre o pássaro que pousa na janela e o desejo de ser alguém do lado de fora dos muros. Ao abrir mão de uma escrita estritamente formal, contrariamos os prognósticos acadêmicos e escolhemos a materialidade poética das palavras como via de reflexão, buscando pensar uma prática artística porosa, transitória e efêmera – como são as aulas na prisão.
A metáfora do rato aproxima nossos interesses ao possibilitar o compartilhamento da experiência extensionista, evidenciando como a universidade pública, as artes e o teatro podem operar como dispositivos de infiltração e de leitura crítica de instituições totais, sejam elas quais forem. Assim, atua-se como dentes finos que corroem, pouco a pouco, as superfícies endurecidas da prisão. Nesse movimento, o rato emerge como figura simbólica nos interstícios dos muros institucionais, permitindo tensionar os modos de habitar e compreender esses espaços.
Os desafios enfrentados por professores e professoras na condução de atividades em contextos de privação de liberdade exigem constantes estratégias de renovação, drible e reinvenção pedagógica, mobilizando práticas situadas às instabilidades e às imprevisibilidades que atravessam tais territórios. Professores e professoras tornam-se, também, ratos: precisam farejar o terreno, reconhecer o perigo, desviar das interdições, reinventar percursos, suportar o “hoje não terá aula de teatro” como quem encontra uma porta fechada e, ainda assim, procura outra fresta. Nesse horizonte, a pedagogia abolicionista se constrói em rede, sustentada por uma perspectiva de multiplicação, se disseminando como rastros que insistem em atravessar os muros.
| País | Brasil |
|---|---|
| Correo electrónico | guilhermeaugut@gmail.com |
| Modalidad de inscripción de la ponencia | Laboratorio de investigación |