22–23 de octubre de 2026
Campus universitario Luisi Janicki.
America/Montevideo zona horaria

VIAS DE UMA PEDAGOGIA ABOLICIONISTA: A CUSTÓDIA, O TEATRO E O RATO NO MURO

No programado
20m
Campus universitario Luisi Janicki.

Campus universitario Luisi Janicki.

Ponentes

Guilherme Augusto Nunes dos Santos (Universidade do Estado de Santa Catarina)Dr. Vicente Concilio (Universidade do Estado de Santa Catarina)

Descripción

O presente texto apresenta uma reflexão a partir de uma Pedagogia das Artes Cênicas infiltrada em espaços de privação de liberdade. A análise aqui desenvolvida situa-se no âmbito do trabalho de pesquisadores e pesquisadoras, em níveis de graduação e pós-graduação, vinculados ao projeto de pesquisa Teatro e Prisão: práticas de infiltrações das Artes Cênicas em espaços de vigilância e ao projeto de extensão Pedagogia das Artes Cênicas e Espaços de Criação: Teatro e encarceramento. Ambos são coordenados pelo Prof. Dr. Vicente Concilio, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Florianópolis, Santa Catarina, sendo compostos também por estudantes de mestrado e doutorado, bolsistas de iniciação científica e bolsistas de extensão.
A atuação dos integrantes se estabelece a partir da articulação entre ensino, pesquisa e extensão, desenvolvendo-as em quatro unidades distintas: o Centro de Internação Feminino de Florianópolis (CIF), o Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE), o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Florianópolis (HCTP) e o Presídio Feminino de Florianópolis (PF). Os pesquisadores e as pesquisadoras elaboram e conduzem aulas e oficinas de teatro, além de promoverem apresentações e momentos de fruição nos espaços mencionados. O artigo Teatro e prisão: infiltrações das artes cênicas em espaços de vigilância (Concilio, Cardoso, Santos, Souza, 2024) apresenta, de forma mais detalhada, o trabalho realizado pelo projeto, com ênfase nas atividades extensionistas realizadas também no Centro de Internação e no Presídio.
A análise-relato-reflexão que construímos no presente texto emerge do trabalho extensionista desenvolvido pelo pesquisador Guilherme Augusto Nunes dos Santos e pela pesquisadora Amanda Dalsenter Cardoso, sob a orientação do Dr. Vicente Concilio, no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Florianópolis. Embora Amanda não tenha participado diretamente da elaboração deste recorte textual, suas contribuições foram fundamentais tanto para a permanência do projeto na instituição quanto para a construção de uma leitura crítica do trabalho ali realizado.
Desde 2023, motivada por um interesse pessoal de Guilherme e Amanda, estabeleceu-se uma relação entre o Hospital de Custódia e a Universidade do Estado de Santa Catarina, de maneira contínua, no âmbito da disciplina Estágio Curricular Supervisionado: Teatro na Comunidade I, ministrada pelo Dr. Vicente Concilio, no curso de Licenciatura em Teatro da UDESC. Com a institucionalização dessa parceria e o cumprimento dos créditos da disciplina, as atividades passaram a ser desenvolvidas como um projeto vinculado às ações de pesquisa e extensão coordenadas por Vicente, assegurando a continuidade das ações artístico-pedagógicas no Hospital de Custódia. Atualmente, essas ações compreendem a pesquisa de mestrado de Guilherme.
As aulas no Hospital de Custódia, que constituem o corpo analítico deste texto, foram elaboradas com base no uso de diferentes abordagens, tais como jogos teatrais, improvisação, texto e jogo, construção de materialidades, teatro de animação, teatro de sombras e aproximações com a literatura, a música, a dança e as artes visuais. A investigação dessas múltiplas metodologias buscava compreender modos de atuação diante das diversas especificidades, limitações e desafios do contexto, especialmente considerando que as práticas eram desenvolvidas por jovens professores em processo de formação. A construção de um repertório de práticas estabeleceu uma dinâmica entre professores e alunos que se mantém até hoje (2026).
A investigação acerca da práxis e da fundamentação metodológica das aulas desenvolvidas no HCTP, bem como dos principais avanços e desafios identificados ao longo do processo, encontra-se pormenorizadamente descrita em Notas sobre o teatro e a prisão: a crise da custódia e do tratamento psiquiátrico (Santos, 2025). A supracitada monografia constitui, assim, o ponto de partida para a formulação de uma nova pergunta: de que modo uma prática extensionista no âmbito das Artes Cênicas pode suscitar outras formas de olhar, de se relacionar e de exercer uma crítica sobre determinado território, por meio de uma leitura poética e estética?
Na tentativa de responder a essa questão, nossa análise-relato-reflexão aproxima-se metodologicamente de uma perspectiva de multiplicidade epistemológica, transitando entre a pesquisa-ação, os relatos de experiência e o diálogo com diferentes campos de produção de conhecimento. Desse modo, estabelece-se uma interlocução não apenas com pesquisadores do campo científico, mas também com escritoras e artistas. Ancorada na dramaturgia O Rato no Muro (2023), da escritora brasileira Hilda Hilst (1930–2004), esta reflexão se debruça sobre a experiência de ensino de teatro no HCTP, tomando como recorte temporal os anos de 2023 a 2025. A partir da metáfora do rato, e em aproximação crítica à Resolução nº 487/2023 do Conselho Nacional de Justiça (2023), que estabelece diretrizes para o fechamento de instituições como o HCTP, formulam-se hipóteses acerca de infiltrações, modos de organização e possibilidades de produção de novos mundos.
Ao nos colocarmos como artistas-professores inseridos no interior dessas instituições, assumimos também a posição de leitores específicos de suas engrenagens, tensões e dispositivos de domesticação. Não observamos tais espaços de fora, mas a partir de uma experiência situada, atravessada pelas contradições de habitar contextos que, ao mesmo tempo em que possibilitam a prática artística e pedagógica, também operam mecanismos de controle e vigilância. Nesse sentido, aproximamo-nos da dramaturgia O Rato no Muro, de Hilda Hilst, que nos apresenta, por meio da fabulação, uma Instituição Total (Goffman, 2015). A partir dessa leitura, tecemos diálogos entre a ideia de infiltração e a figura da Irmã H; entre a Superiora e o Panóptico; entre o pássaro que pousa na janela e o desejo de ser alguém do lado de fora dos muros. Ao abrir mão de uma escrita estritamente formal, contrariamos os prognósticos acadêmicos e escolhemos a materialidade poética das palavras como via de reflexão, buscando pensar uma prática artística porosa, transitória e efêmera – como são as aulas na prisão.
A metáfora do rato aproxima nossos interesses ao possibilitar o compartilhamento da experiência extensionista, evidenciando como a universidade pública, as artes e o teatro podem operar como dispositivos de infiltração e de leitura crítica de instituições totais, sejam elas quais forem. Assim, atua-se como dentes finos que corroem, pouco a pouco, as superfícies endurecidas da prisão. Nesse movimento, o rato emerge como figura simbólica nos interstícios dos muros institucionais, permitindo tensionar os modos de habitar e compreender esses espaços.
Os desafios enfrentados por professores e professoras na condução de atividades em contextos de privação de liberdade exigem constantes estratégias de renovação, drible e reinvenção pedagógica, mobilizando práticas situadas às instabilidades e às imprevisibilidades que atravessam tais territórios. Professores e professoras tornam-se, também, ratos: precisam farejar o terreno, reconhecer o perigo, desviar das interdições, reinventar percursos, suportar o “hoje não terá aula de teatro” como quem encontra uma porta fechada e, ainda assim, procura outra fresta. Nesse horizonte, a pedagogia abolicionista se constrói em rede, sustentada por uma perspectiva de multiplicação, se disseminando como rastros que insistem em atravessar os muros.

País Brasil
Correo electrónico guilhermeaugut@gmail.com
Modalidad de inscripción de la ponencia Laboratorio de investigación

Autores

Guilherme Augusto Nunes dos Santos (Universidade do Estado de Santa Catarina) Dr. Vicente Concilio (Universidade do Estado de Santa Catarina)

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