22–23 de octubre de 2026
Campus universitario Luisi Janicki.
America/Montevideo zona horaria

Caravela dos Sonhos: arte, educação e decolonialidade

No programado
20m
Campus universitario Luisi Janicki.

Campus universitario Luisi Janicki.

Ponente

Adriana Prado (Universidade Nova de Lisboa)

Descripción

A obra de arte “Caravela dos Sonhos” é uma obra idealizada, projetada, coordenada e construída pela artista pesquisadora, Adriana Prado, juntamente com muitas mãos. O objeto artístico é concebido a partir de ação artística educativa destinada aos jovens em conflito com a lei privados de liberdade, confinados em centro socioeducativos.
Entre os dias 05 e 23 de janeiro de 2026, foram realizadas oficinas, em oito centros socioeducativos do Distrito Federal. A ação foi financiada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), da Secretaria de Estado de Cultural e Economia Criativa do Distrito Federal (SECEC-DF). Desse modo, nesta edição, o projeto denominado “Caravela dos Sonhos” contou com equipe educativa composta por uma Arte-Educadora e dois assistentes, que viabilizaram as oficinas. Sendo eles, respectivamente: Adriana Prado, Luan Chagas e Marina Raimundini.
As oficinas abordaram a apresentação geral do projeto, logo, explicação do objetivo de criar uma obra de arte como produto final, cuja denominação é “Caravela dos Sonhos”; obra que é constituída por tsurus (dobraduras de origami no formato de pássaro). Contudo, segundo a lenda japonesa, a cada tsuru confeccionado se faz um pedido e, quando 1.000 tsurus são dobrados, os pedidos se realizam. Assim, conceitos são introduzidos, no decurso das oficinas, a fim de contextualizar a obra, como: grandes navegações; decolonização; mapas (globo + impressos); bem como discussão sobre patrimônio, monumentos e conservação, tal como: Torre de Belém e Padrão dos Descobrimentos.
Fez-se necessário abrir diálogo sobre “O que é Museu?” e apresentar a coleção do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém (Portugal) – que está presente a obra do artista Alexander Calder, onde o objeto artístico “Caravela dos Sonhos” “bebe” influência - e o Museu Nacional da República (Brasília) – onde a “Caravela dos Sonhos” foi exposta.

Durante o processo, os jovens produziram em média 12 mil tsurus. A partir das dobraduras, que são intimamente ligadas a sonhos, desenhos, anseios, imaginação, os origamis foram costurados em sete camadas no formato de caravela, para compor a obra final, pelo fato desse objeto ter característica tridimensional. Uma grande obra (6 m de largura por 2,80 m de altura) é suspensa, flutua no ar, tal como um móbile. Na “Caravela dos Sonhos”, portanto, é dissolvida a simbologia de poder e colonialismo, absorvendo o significado representativo de travessia, novos futuros, novas possibilidades, as diversas vias que se pode traçar no oceano da vida... Uma Caravela de esperança, de muitos sonhos sonhados por jovens que estão começando a navegar a imensidão da vida.

“Caravela dos Sonhos” foi exposta no Museu Nacional da República, arquitetura assinada por Oscar Niemeyer. A exposição foi aberta ao público, inicialmente, em evento privado para 60 pessoas, no dia 10 de fevereiro de 2026. A partir do dia 11 de fevereiro, todo o público foi convidado a vivenciar e fruir da obra de arte, que esteve patente até 28 de março de 2026.
Quanto a obra “Caravela dos Sonhos”, a leveza do conjunto contrasta com a densidade simbólica do objeto: a caravela, historicamente vinculada às grandes navegações e à expansão colonial europeia, é aqui ressignificada. Na obra, dissolve-se sua associação ao poder e à dominação, abrindo espaço para significados ligados à travessia, aos sonhos e às múltiplas possibilidades de futuro.
A participação dos jovens permite uma leitura crítica a partir do conceito de colonialidade, formulado por Aníbal Quijano. Para o autor, a colonialidade diz respeito à permanência de estruturas de poder que, mesmo após o fim do colonialismo formal, continuam organizando a sociedade por meio de hierarquias raciais, sociais e econômicas. Nesse sentido, os jovens participantes podem ser compreendidos como sujeitos historicamente situados em posições de marginalização, marcados por desigualdades estruturais e acesso limitado a direitos fundamentais.
Assim, sua condição não pode ser reduzida a escolhas individuais. A criminalização de seus corpos e trajetórias revela a continuidade de uma lógica que associa determinados grupos sociais à inferioridade e à periculosidade. A obra torna visíveis essas marcas, frequentemente naturalizadas no cotidiano social, ao trazer esses jovens para o centro do processo criativo.
Por outro lado, a “Caravela dos Sonhos” também se configura como um gesto de decolonialidade. Ao reconstruir a caravela com tsurus feitos por jovens marginalizados, a obra transforma um símbolo histórico de dominação em um espaço de criação, escuta e reinvenção. Esse deslocamento dialoga com as ideias de Walter Mignolo, para quem a decolonialidade implica não apenas criticar a colonialidade, mas produzir outras formas de existência, saber e sentido.
Dessa forma, a obra articula denúncia e proposição. Ao mesmo tempo em que evidencia as permanências da colonialidade, propõe novas possibilidades simbólicas e sociais, reconhecendo esses jovens como sujeitos capazes de criar, imaginar e construir novos horizontes para suas próprias trajetórias.

País Brasil
Correo electrónico a.lopesprado@gmail.com
Modalidad de inscripción de la ponencia Taller de sistematización de experiencias

Autor

Adriana Prado (Universidade Nova de Lisboa)

Materiales de la presentación

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