Ponente
Descripción
Esta proposta busca desenvolver algumas das reflexões que temos mobilizado no âmbito do projeto de pesquisa e extensão Direito à Poesia, desenvolvido por docentes e estudantes da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), desde o ano de 2015, na cidade de Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina. Em suas linhas mais gerais, o projeto consiste na realização de rodas de leitura e oficinas de escrita nas penitenciárias da cidade, atualmente na Penitenciária Feminina de Foz do Iguaçu (PFF-UP) e na Penitenciária Estadual 3 (PEF 3).
É a partir dos desafios e das descobertas mobilizados por esta experiência extensionista, que temos buscado aprofundar a pesquisa do grupo em algumas direções: a respeito dos tensionamentos que a experiência no projeto proporciona em relação aos entendimentos estabelecidos das noções de prisão, de literatura e de Universidade; sobre as teorias e práticas da mediação de leitura em contextos adversos; sobre outras experiências desenvolvidas por coletivos ou grupos extensionistas em cárceres de distintos países do continente, que apontam para as múltiplas possibilidades do trabalho com literatura e artes no ambiente prisional; sobre novas leituras possíveis da história literária, que tenham em vista as prisões latino-americanas.
Estes temas são trabalhados à luz da questão mais ampla e inescapável do problema das prisões na América Latina em sua historicidade marcada pelo passado escravista e do contexto contemporâneo neoliberal de criminalização da pobreza (Segato, 2007; Zaffaroni, 2021; Borges, 2018; Wacquant, 2012). Os coletivos e projetos extensionistas que se dispõem a atuar em prisões chamam assim a atenção sobre os reiterados processos de exclusão e de múltiplas violências a que as populações racialmente marcadas são submetidas em nossos países.
A partir deste panorama mais amplo, esta apresentação terá como objetivo retomar uma das perguntas que tem acompanhado o trabalho do Direito à Poesia desde o início, a qual diz respeito às dinâmicas implicadas entre o(a)s sujeito(a)s envolvido(a)s no ato de interpelação (Ramos, 2021) que se instaura com a criação de uma oficina na prisão. No caso, gostaríamos de aprofundar essa pergunta tendo em vista dois fatores que confluem na formação dos grupos com os quais temos trabalhado na penitenciária masculina e que mobilizam a pensar o trabalho de mediação que aí acontece.
O primeiro desses fatores diz respeito justamente às questões de gênero implicadas no contexto de uma unidade masculina, que acabam aparecendo nas oficinas sem que necessariamente tenhamos direcionado o trabalho para isso. Essa questão aparece já na apresentação do projeto ao público externo, leigo: de que maneira o trabalho em uma prisão masculina nos coloca frente a outros interlocutores? Os tensionamentos movidos pelo debate abolicionista, as críticas em relação às políticas de encarceramento massivo e seletivo em nossos países e a busca por justiças alternativas são bastante melhor absorvidos quando comentamos do trabalho com as mulheres- as violências carcerárias parecem causar maior indignação sob essa moldura (e não apenas pelas camadas adicionais de violência que reconhecemos nas prisões femininas) e o trabalho é visto aí como mais necessário. Mas há também questões de gênero que emergem no cotidiano mesmo das oficinas, que podem se abrir da leitura de um poema, da discussão de um conto, ou na produção literária dos participantes. Como ler os imperativos de memória desses textos? (Seligmann-Silva, 2003). Interessa-nos seguir investigando o potencial de descobertas da literatura mesmo em um contexto que é de restrição e vigilância e isso diz respeito também à pauta das masculinidades (Ruiz e Torres, 2025; Fregoso Centeno e Guzmán, 2024; Crewe, 2014).
O segundo fator que consideraremos na apresentação emerge do fato de que temos trabalhado muito frequentemente com grupos fortemente identificados pelo vínculo religioso entre os participantes, o que nos aproxima de um dado inescapável da dinâmica social das prisões contemporâneas. Rita Segato comenta como a conversão religiosa evangélica empresta um vocabulário de “morte e renascimento” que possibilita uma espécie de ponto zero redentor dos sujeitos em prisões para contarem sua história (Segato, 2003). Em nosso caso, de saída, mostra-se importante buscar entender melhor essa dinâmica a partir das pesquisas de outros colegas que se debruçaram sobre o tema (Manchado, 2020 e 2021; Figueira, 2006; Arriagada, 2015; Lobo, 2005). Por meio desse diálogo, interessa-nos perguntar: de que modo o trabalho com literatura dentro da prisão é atravessado por -e atravessa- esse outro universo simbólico, semântico, linguístico, social que é o do discurso religioso? Ou, em outras palavras, de que maneira se interpelam universos discursivos com funcionamentos tão diversos? De que modo podemos tornar produtivas essas interferências? De que maneira isso traz implicações para o modo como nos entendemos enquanto mediadores nesse contexto específico?
Palavras-chave: literatura e prisões, masculinidade e prisões; religiosidade e prisões.
REFERÊNCIAS
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ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Colonização punitiva e totalitarismo financeiro - a criminologia do ser-aqui. Rio de Janeiro: Da Vinci, 2021.
| País | Brasil |
|---|---|
| Correo electrónico | cristiane.checchia@unila.edu.br |
| Modalidad de inscripción de la ponencia | Laboratorio de investigación |