22–23 de octubre de 2026
Campus universitario Luisi Janicki.
America/Montevideo zona horaria

Artes Cênicas e Socioeducação: reflexões e pistas sobre a mediação arte-educadora em unidades de internação socioeducativa masculina.

No programado
20m
Campus universitario Luisi Janicki.

Campus universitario Luisi Janicki.

Ponente

Djallys Dietz Ferreira (Universidade do Estado de Santa Catarina)

Descripción

Como mestrando do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UDESC investigo
práticas em Artes Cênicas realizadas com adolescentes em privação de liberdade. Entre 2022 e 2025
desenvolvi oficinas criativas utilizando a metodologia colaborativo-dialógica em duas práticas
artísticas que criei e experimentei com socioeducandos da Unidade de Internação de São Sebastião,
no Distrito Federal, onde atuo como servidor público na função de Especialista Socioeducativo em
Artes Cênicas. Nessas práticas, os adolescentes atuaram na criação e produção artísticas, as quais se
deram a partir da interface do teatro com o audiovisual, sendo os adolescentes protagonistas em
todas as etapas dos processos criativos. Essas vivências estão sendo cartografadas em minha
pesquisa e tem como objetivo dialogar com a comunidade sobre as especificidades desses espaços
de vigilância e sobre como pode ser pensada a mediação arte-educadora em contextos de
encarceramento, sendo o recorte da pesquisa voltado às internações socioeducativas masculinas.
Nesse sentido, a pesquisa (em fase avançada de escrita) pretende apresentar minhas reflexões em
torno de quatro eixos de mediação que considero serem importantes para qualquer pessoa que
queira atuar em espaços de vigilância com atividades cênicas. Esses quatro eixos seriam: a
mediação artístico-criadora; a mediação produtora; a mediação institucional; e a mediação
socioeducadora. Conforme as cartografias são narradas na escrita apresento minhas reflexões em
torno desses eixos de modo a ampliar a discussão para a urgência e relevância de se pensar políticas
públicas e práticas em artes cênicas que façam sentido para esses adolescentes encarcerados.
Na pesquisa em curso a mediação arte-educadora se estabelece muitas vezes na fronteira
entre o artista-educador e a instituição socioeducativa e, nesse sentido, trago o olhar sobre a
necessidade de uma “mediação institucional”. Como negociar com a instituição socioeducativa,
marcada pela conduta punitivista, a disponibilização de espaços adequados para a experimentação
artística com os acautelados? Como construir pontes de diálogo e entendimento com os servidores
que “vigiam” a realização das atividades artísticas? Como ter apoio operacional e logístico para
apresentações e produções de Arte e Cultura? Como atuar para ocultamente romper os muros da
instituição e tecer reflexões sobre o abolicionismo penal, tanto com os opressores como com os
oprimidos dessa estrutura punitivista?
Da mesma forma, reflito na pesquisa sobre a importância do agenciamento de forças e de
laços de afeto que permeiam as produções artísticas coletivas e por essa razão trago também a
“mediação produtora”. Penso em rede quando sugiro uma ideia de mediação produtora. Ela
acontece nos bastidores e é responsável por levantar a arquitetura das criações, intermediando os
meios materiais que possibilitam o fazer e o acontecimento da experiência artística dos envolvidos.
Seria a produção em si, na estreita troca e comunicação que se dá entre os mediadores. Nas
atividades cênicas que desenvolvi as emergências surgiam a cada encontro e foram a partir delas
que os vínculos foram se aprofundando com os adolescentes e permitindo a experimentação
artística que possibilitaria realizar a “mediação artístico-criadora”, que nada mais é do que
possibilitar um espaço-tempo para o adolescente fruir e se permitir ser também um artista-criador.
Há uma urgência de se preparar artistas educadores para atuar em sistemas de privação de
liberdade, em especial no socioeducativo. A atuação ali perpassa muitos atravessamentos, sendo
necessário munir os mediadores que ocuparão esses espaços com ferramentas sensíveis e potentes
que façam sentido para as populações que habitam esses territórios de passagem. O elemento
provisório da cadeia, o próprio tempo, passa e consigo deixa as marcas e feridas nos corpos dos que
ali habitaram. Num território de passagem habitam corpos de passagem que se moldam para nunca
mais serem os mesmos. Onde a Arte poderia habitar em meio a essas cicatrizes? Como a
experiência artística pode fluir em meio ao punitivismo? Como pensar a recepção e o efeito estético
a partir da singularidade do contexto sócio-histórico dos encarcerados? Como mediar esses
mundos?
No Brasil, infelizmente, temos poucos centros de pesquisa acadêmica sobre teatro em
espaços de vigilância, valendo citar os programas da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(Unirio) e da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), os quais vêm cultivando uma
rede que tem amparado pesquisadores de diversas regiões brasileiras (e além-mar) nessa busca por
práticas e metodologias em artes cênicas em territórios de encarceramento. Como ressalta Concílio
na obra “Pedagogias do desterro – práticas de pesquisa em Artes Cênicas”,
Precisamos nos aproximar! Os intercâmbios estabelecidos em nossa pesquisa vão se
aprofundar uma vez que nos esforçamos para aprender uns com os outros. O processo em
Florianópolis mais recente, deve muito aos caminhos abertos pelos programas mais antigos.
Nós agora Avançamos Juntos. (CONCÍLIO, 2020, p. 425)
Nesse sentido, o objetivo principal do trabalho é contribuir com a rede e com a ampliação e
sistematização de práticas de artes cênicas em contextos de encarceramento para adolescentes
acautelados em unidades de internação masculina e, principalmente, pensar os caminhos da
mediação arte-educadora nesses territórios, considerando as assimetrias, interseccionalidades e
desafios desses locais de privação.
O mais importante das duas práticas que serão cartografadas no trabalho reside justamente
na valorização dos processos ao longo das atividades artísticas ministradas. Por meio de uma
abordagem colaborativo-dialógica, a qual priorizou as relações, criações e afetos que emergiram das
interações com os adolescentes nessas duas atividades, tive a oportunidade de alcançar lugares
bastante interessantes e de muita criatividade com os adolescentes. Márcia Machado Braga, para
quem “o diálogo é uma forma de comunicação que conduz os nossos encontros, a nossa
metodologia de trabalho”(BRAGA, 2025, p. 117), pontua a metodologia colaborativo-dialógica
como uma ferramenta de trabalho muito potente para ser aplicada com pessoas em situação de
privação de liberdade.
“Nos encontros trabalhamos a partir de emergências, entendidas como aquilo que
emerge, o que fica evidente nas falas durante o diálogo que estabelecemos, mas
também trabalhamos com a emergência como uma urgência” (BRAGA, 2025, p.27).
Nesse sentido, as duas escritas cartográficas subsidiam uma reflexão sobre a importância de
se construir o vínculo com os acautelados e estimular o diálogo e a colaboração criativa coletiva nas
oficinas cênicas nos contextos de privação de liberdade. Essa foi uma confluência que não surgiu
intencionalmente ou a partir de cursos de formação, mas mediante um olhar sensível e observador
que procurou a todo momento identificar o conjunto de forças que atravessam as paredes de uma
unidade de internação socioeducativa.
Dessa maneira, para refletir melhor sobre o prisma macropolítico que envolve os espaços de
vigilância, tenho buscado estabelecer análises dos aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais
que envolvem o objeto de estudo, mostrando as complexidades e particularidades que essa
discussão alcança quando colocada diante de assuntos tão abrangentes como os estudos sobre a
adolescência, da própria socioeducação e, principalmente, sobre a estrutura punitivista das prisões a
qual tem alimentado o debate sobre abolicionismo penal.
Ainda não existem trabalhos publicados, infelizmente, organizando e sistematizando práticas
em artes cênicas voltadas especificamente para adolescentes em espaços de vigilância no Brasil,
tampouco existem na maioria das universidades ações que visam formar artistas-educadores
preparados para ocupar esses locais. Souza e Bareicha no artigo “Laboratório de artes cênicas na
socioeducação: pedagogia teatral para jovens em conflito com a lei” ponderam as dificuldades de se
organizar essas práticas e a necessidade de se buscar metodologias teatrais que contribuam
efetivamente para o processo ressocializador dos adolescentes,
As opções abertas com o teatro, empreendidas nesta pesquisa, implicam ainda a disputa
desses jovens por espaços de expressão em busca da desestigmatização. Daí a necessidade
de uma metodologia para as artes cênicas no contexto de restrição de liberdade. (...). (DE
SOUZA; DE ANDRADE BAREICHA, 2022, p. 450)
Assim sendo, como metodologia de trabalho, procuro contextualizar as unidades de
internação masculina em seus aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais mais amplos e
profundos, considerando as peculiaridades de um país colonizado marcadamente patriarcal, racista,
misógino e com uma trajetória de desigualdades e violências que assolam há séculos os setores mais
carentes e vulneráveis. Ademais, há uma necessidade urgente de se buscar práticas em artes cênicas
realizadas nos cárceres da América Latina, da África e de outros países colonizados como o Brasil,
de modo a sistematizar pedagogias teatrais possíveis, afetuosas, sensíveis e combativas que façam
sentido para nossa população encarcerada. Por esse aspecto, é coerente pontuar a preocupação de
Júlia Oliveira, em “Pedagogias do desterro – práticas de pesquisa em Artes Cênicas”, quando
coloca,
Nessa trajetória que venho realizando com a prática teatral no cárcere, encontro a carência
de metodologias teatrais que alimentem especificamente este campo de trabalho e que não
sejam unicamente as referências clássicas do norte do mundo que se encontram já
sistematizadas. Assim, tratando-se dos aspectos práticos de uma pesquisação com teatro na
prisão, é necessário deslocar também as metodologias empregadas no trabalho e buscar
beber de outras matrizes e fundir a prática pedagógica com perspectivas que visem
descolonizar o saber e reinventar sentidos. (OLIVEIRA, 2020, p. 397)

País Brasil
Correo electrónico djallys@gmail.com
Modalidad de inscripción de la ponencia Laboratorio de investigación

Autor

Djallys Dietz Ferreira (Universidade do Estado de Santa Catarina)

Materiales de la presentación

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